sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A EGOLATRIA



Por Giovanni Papini




Jena, 8 de julho

Em Blumenwald, Casa de Repouso, onde mandei um psicoterapeuta restaurar meus nervos cansados, reparei, desde a primeira noite, num homúnculo torto e claudicante que carregava com muita valentia suas várias deformidades. Tinha um olho vendado de preto, o crânio em feitio de cone, o nariz devorado por um lúpus e reduzido a uma cicatriz vermelha, a boca escondida por uma vegetação de mechas cor de cobre desbotado. Esse sujeito entretanto agitava-se mais do que os outros hóspedes, conversava em voz alta com todos, e era encontrado a todo instante, precedido pelas batidas rápidas de sua bengala-cajado. Soube que se chamava Dr. Mundung e que tinha escrito, como três quartos dos alemães, alguns livros.
No segundo dia, enquanto passeava no jardim, agarrou-me e obrigou-me a sentar a seu lado, num banco de madeira.
- O senhor é estrangeiro – sentenciou com uma voz mais grossa do ele próprio, - e sem dúvida veio à Alemanha para aprender. Germania docet[1]. Aqui está a Alma Mater do mundo. Tantas cidades tantas universidades; cada seis habitantes um professor. Até mesmo nessa casa vergonhosa que não é nem um hotel, nem uma pensão, nem uma clínica, nem um sanatório, nem um instituto de cultura, mas onde um charlatão sem escrúpulos vende esperanças e salsicha a caro preço, pode-se encontrar um alimento para o espírito. O senhor certamente conhece meu nome: Dr. Mundung, diplomado em Religionsgeschichte[2], autor de um volume sobre as doutrinas esotéricas dos jezidis, ou adoradores do demônio, de várias Betrachtungen[3] sobre o culto astral entre os hereros, e de uma obra, já hoje clássica, sobre as relações proto-históricas entre as divindades subterrâneas da Frígia e a deusa germânica Frigga. Se me encontro aqui, longe das bibliotecas e dos meus estudos, a culpa é de alguns colegas invejosos que quiseram, com este estratagema, afastar por algum tempo o perigo de que eu concorra a uma cátedra universitária. Minha mulher, que é chinesa e não conhece bem os costumes da sua nova pátria, deixou-se persuadir por eles e... Perdoe-me se falo de assuntos particulares: é um erro, aliás, uma heresia.
- Posso lhe garantir, porém, que nem sequer em Blumenwald perdi meu tempo. Para um estudioso da história das religiões a variedade é uma vantagem; para os homens em geral um inconveniente. Tentou-se criar uma língua universal, mas ninguém conseguiu inventar uma religião realmente para todos.
- O erro consiste nisso: a natureza do homem não foi suficientemente aprofundada. O homem, a despeito de todas as hipocrisias e as retóricas, só ama sinceramente a si próprio, e só respeita e adora o próprio eu. Ele finge, por medo ou por sugestão, venerar os Deuses, os Herois, a Pátria, a Humanidade e todos os outros entes, históricos ou abstratos, que enchem as galerias da história. Estes são na realidade biombos e testas-de-ferro que escondem sua verdadeira fé. Para chegar a uma religião verdadeiramente universal e prática, que todos adotariam alegremente se um profeta corajoso se apresentasse, é necessário levar em conta o centro psicológico da conduta humana.
- A nova e definitiva religião que proponho aos homens é a Egolatria. Cada qual adorará a si próprio, cada qual terá seu Deus pessoal: si mesmo. A Reforma protestante se gabava de fazer de cada homem um sacerdote – não mais intermediários entre a criatura e o Criador. Eu dou um passo adiante: não mais intermediário entre o adorador e o adorado. Cada qual é por si mesmo o seu Deus.
- Juntam-se, desta forma, as vantagens do politeísmo e as do monoteísmo. Cada homem terá um só Deus mas os deuses serão tantos quantos são os homens. E não haverá perigo de cismas porque os ególatras, apesar de concordar no princípio fundamental da nova religião, não cairão nunca, por motivos evidentes, na loucura de adorar um deus estranho, ou seja, uma outra criatura semelhante a eles.
- Esta religião é, ao mesmo tempo, o fruto supremo do idealismo alemão e da mais moderna civilização. Quando Fichte, ao subir um dia na cátedra, anunciou aos ouvintes: “hoje criaremos Deus”, a Egolatria estava virtualmente fundada. Se Deus é uma criação da nossa atividade prática ou ética, ou seja, obra da mente humana, por que adorá-lo como se realmente existisse a não ser no espírito humano, adorando o homem adoramos o verdadeiro Deus, o Deus absoluto, o Deus não mais desconhecido. Mas não se pode adorar o Homem em geral. A Menschheit[4] é uma abstração, um flatus vocis: o homem autêntico se realiza no indivíduo concreto, ou seja, em cada um de nós.
- A civilização moderna, que aos poucos destruiu as sobras da fantasmagoria transcendental, começou, sem se dar conta, a praticar a Egolatria. O Esporte é a adoração do corpo; o culto da Ciência é substituir-se à onisciência atribuída a Deus; o culto da máquina é um substituto para a onipotência de Deus. O que parecia reservado ao ser perfeito torna-se aos poucos prerrogativa comum dos mortais.
- Digo-lhe, em confidência, que a Egolatria já é praticada inconscientemente pela maioria da humanidade. Trata-se agora de dar-lhe um nome, uma fé e uma consciência. E essa será minha tarefa assim que sair desta caverna de envenenadores.
- Será necessário, dirá o senhor, um culto, mesmo que baseado no moderno senso prático. Já pensei nisso. Todo ególatra mandará fabricar sua própria estátua: em ouro, em bronze, em mármore, de acordo com suas posses. Se não for rico o bastante para contratar um escultor, poderá contentar-se com um retrato a óleo ou até mesmo com uma boa fotografia. Diante desta imagem colocará oferendas e recitará suas orações. Encontraremos ótimas fórmulas para a celebração do Eu nos livros dos idealistas e no Canto do Próprio Eu de Walt Whitman. O banho diário ou semanal será o equivalente do batismo; a refeição substituirá a comunhão; o sono, perda transitória da consciência do Eu, será a penitência. Como o senhor vê, trata-se de uma religião confortável e não muito complicada. Não há outro Deus além do homem, e cada homem é a sua encarnação. Finda a humilhação de inclinar-se diante de forças superiores; finda a hipocrisia de renegar o nosso instinto insopitável. O homem ama a si mesmo; que o confesse abertamente e dê a seu amor, sem medo e sem constrangimento, forma devota e litúrgica. Esteja certo de que o século XX será o século da Egolatria.”
Assim que o loquaz monstrengo terminou sua peroração, olhei bem para ele. E com a fantasia pude vê-lo em adoração diante de uma estátua que reproduzia seu rosto horrendo, seu corpo retorcido. Não pude deixar de rir. O Dr. Mundung não se ofendeu.
- A minha religião – continuou – é uma mensagem de felicidade e não de humilhação. O senhor penetrou no espírito da minha empresa e espero que seja meu profeta na segunda metade da terra.
E dito isso, tocou-me os joelhos com as mãos minúsculas, em ato de consagração. Percebi então que uma mão tinha somente quatro dedos, e a outra seis.
[1] A Alemanha ensina.
[2] História da Religião
[3] Meditações
[4] Humanidade

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

EXISTE ÉTICA SEM DEUS?


Fiodor M. Dostoievski talvez seja o mais famoso dos romancistas russos, autor de clássicos que há anos atraem a atenção de milhões de leitores no mundo inteiro como Crime e Castigo e Os irmãos Karamazovi. Esta última obra, inclusive, foi reputada por Sigmund Freud como o maior romance já escrito. Um episódio em especial influenciou toda a carreira de Dostoievski: em 1849 ele foi preso e condenado ao fuzilamento por defender ideias socialistas em uma Rússia ainda governada pelos czares. Já nos preparativos para a execução, teve a pena comutada pelo czar e transformada em trabalhos forçados na Sibéria. A lembrança angustiada desse episódio o seguiria pela vida inteira. Na Sibéria, começou a sofrer de epilepsia, uma doença que durante muito tempo o perseguiu.
Uma frase em particular se tornou muito conhecida como um resumo da obra dostoievskiana: “Se Deus não existe, tudo é permitido.” Na verdade, essa não é a sentença original de Dostoievski, mas uma paráfrase feita pelo filósofo francês Jean Paul Sartre no livro O Existencialismo é um Humanismo. Dostoievski expõe seu argumento ao longo do livro Os irmãos Karamazovi pela boca de Ivan Karamazov, que é ele próprio um ateu niilista que pensa que sem a crença na existência de Deus não haveria civilização. Ele cita a famosa frase de Voltaire: “se Deus não existisse, precisaríamos inventá-lo.”
Ivan também é citado por outro personagem como tendo dito: “para o indivíduo que não crê em Deus, nem em sua imortalidade, a lei moral da natureza devia imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado até a perversidade, devia não somente ser autorizado, mas reconhecido como a saída mais necessária, a mais razoável e quase a mais nobre.” O irmão de Ivan, Dimítri, conclui: “se bem entendi, ‘a perversidade deve ser não somente autorizada, mas reconhecida como a saída mais necessária e a mais razoável de cada ateu. Haverei de lembrar-me!”
Durante a leitura, fica patente o poder que a crença na existência de Deus e na imortalidade da alma tem sobre as escolhas morais dos personagens. Tudo se desdobra para que ocorra uma tragédia na família Karamazovi: o suposto parricídio cometido por Dmitri contra o patriarca da família, o debochado e luxurioso Fiodor Karamazov.
Mas permanece a pergunta: se Deus não existisse, tudo seria mesmo permitido? Ou em outras palavras, a existência de Deus é absolutamente necessária para o estabelecimento de normas éticas absolutas e universais? A maior parte dos ateus e agnósticos diz que não, e aponta para a o fato de que os mesmos cristãos que afirmam isso foram responsáveis por muitas guerras e por uma das maiores aberrações da história, a Inquisição. Mas isso não refuta o argumento, uma vez que é possível ser um cristão nominal e não praticar os preceitos do cristianismo.
O fundamento último da ética bíblica é o Deus que soberanamente controla toda a realidade. Visto que o homem é parte dessa realidade, deve se submeter às normas do seu Criador sob risco de resistir ao Supremo Governador do universo. Mas se não existe tal Criador não existe uma Revelação, nem uma norma pré-estabelecida. A ética se torna criação humana consensual, algo sobre o que os homens concordam, mas que pode mudar ao sabor da conveniência. Não existe certo ou errado. É errado exterminar 6 milhões de pessoas em nome de uma pureza racial? É errado matar quase 50 milhões em nome da ideologia comunista? O infanticídio e o aborto são condenáveis? A resposta sempre será: depende. De quê? Do momento, da conveniência, do lugar. A mãe assassinar seu bebê é errado em São Paulo, mas é algo cultural numa aldeia indígena. Essa é a ética dos nossos antropólogos. Esse era o temor de Dostoievski quando ele afirmou: “se Deus não existe, eu sou Deus.”
Vemos assim que, sem Deus, tudo o que resta é a incerteza. Friedrich Nietzsche, o filósofo que decretou a morte de Deus, o homem que sabia zombar mas não sabia sorrir, mostra poeticamente a desorientação do homem ao descobrir que Deus está “morto”, ou seja, que não existe mais plausibilidade na fé do Deus cristão: “Mas como fizemos isso?" Pergunta-se Nietzsche na sua Gaia Ciência, "Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte inteiro? Que fizemos quando desatamos esta terra do seu Sol? Para onde vai ela agora? Para onde vamos nós mesmos? Não estamos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para os lados, em todas as direções? Haverá ainda um ‘em cima’ e um ‘embaixo’? não estamos errando através de um vazio infinito? Não sentimos na face o sopro do vazio? Não anoitece eternamente?”
Eis o que restou: o homem errante, sem propósito, sem objetivo, sem restrições, sem fé, sem Deus. Nietzsche morreu louco, mas as suas palavras foram proféticas. Tudo o que resta ao homem sem Deus é o vazio.