
Por Giovanni Papini
Jena, 8 de julho
Em Blumenwald, Casa de Repouso, onde mandei um psicoterapeuta restaurar meus nervos cansados, reparei, desde a primeira noite, num homúnculo torto e claudicante que carregava com muita valentia suas várias deformidades. Tinha um olho vendado de preto, o crânio em feitio de cone, o nariz devorado por um lúpus e reduzido a uma cicatriz vermelha, a boca escondida por uma vegetação de mechas cor de cobre desbotado. Esse sujeito entretanto agitava-se mais do que os outros hóspedes, conversava em voz alta com todos, e era encontrado a todo instante, precedido pelas batidas rápidas de sua bengala-cajado. Soube que se chamava Dr. Mundung e que tinha escrito, como três quartos dos alemães, alguns livros.
No segundo dia, enquanto passeava no jardim, agarrou-me e obrigou-me a sentar a seu lado, num banco de madeira.
- O senhor é estrangeiro – sentenciou com uma voz mais grossa do ele próprio, - e sem dúvida veio à Alemanha para aprender. Germania docet[1]. Aqui está a Alma Mater do mundo. Tantas cidades tantas universidades; cada seis habitantes um professor. Até mesmo nessa casa vergonhosa que não é nem um hotel, nem uma pensão, nem uma clínica, nem um sanatório, nem um instituto de cultura, mas onde um charlatão sem escrúpulos vende esperanças e salsicha a caro preço, pode-se encontrar um alimento para o espírito. O senhor certamente conhece meu nome: Dr. Mundung, diplomado em Religionsgeschichte[2], autor de um volume sobre as doutrinas esotéricas dos jezidis, ou adoradores do demônio, de várias Betrachtungen[3] sobre o culto astral entre os hereros, e de uma obra, já hoje clássica, sobre as relações proto-históricas entre as divindades subterrâneas da Frígia e a deusa germânica Frigga. Se me encontro aqui, longe das bibliotecas e dos meus estudos, a culpa é de alguns colegas invejosos que quiseram, com este estratagema, afastar por algum tempo o perigo de que eu concorra a uma cátedra universitária. Minha mulher, que é chinesa e não conhece bem os costumes da sua nova pátria, deixou-se persuadir por eles e... Perdoe-me se falo de assuntos particulares: é um erro, aliás, uma heresia.
- Posso lhe garantir, porém, que nem sequer em Blumenwald perdi meu tempo. Para um estudioso da história das religiões a variedade é uma vantagem; para os homens em geral um inconveniente. Tentou-se criar uma língua universal, mas ninguém conseguiu inventar uma religião realmente para todos.
- O erro consiste nisso: a natureza do homem não foi suficientemente aprofundada. O homem, a despeito de todas as hipocrisias e as retóricas, só ama sinceramente a si próprio, e só respeita e adora o próprio eu. Ele finge, por medo ou por sugestão, venerar os Deuses, os Herois, a Pátria, a Humanidade e todos os outros entes, históricos ou abstratos, que enchem as galerias da história. Estes são na realidade biombos e testas-de-ferro que escondem sua verdadeira fé. Para chegar a uma religião verdadeiramente universal e prática, que todos adotariam alegremente se um profeta corajoso se apresentasse, é necessário levar em conta o centro psicológico da conduta humana.
- A nova e definitiva religião que proponho aos homens é a Egolatria. Cada qual adorará a si próprio, cada qual terá seu Deus pessoal: si mesmo. A Reforma protestante se gabava de fazer de cada homem um sacerdote – não mais intermediários entre a criatura e o Criador. Eu dou um passo adiante: não mais intermediário entre o adorador e o adorado. Cada qual é por si mesmo o seu Deus.
- Juntam-se, desta forma, as vantagens do politeísmo e as do monoteísmo. Cada homem terá um só Deus mas os deuses serão tantos quantos são os homens. E não haverá perigo de cismas porque os ególatras, apesar de concordar no princípio fundamental da nova religião, não cairão nunca, por motivos evidentes, na loucura de adorar um deus estranho, ou seja, uma outra criatura semelhante a eles.
- Esta religião é, ao mesmo tempo, o fruto supremo do idealismo alemão e da mais moderna civilização. Quando Fichte, ao subir um dia na cátedra, anunciou aos ouvintes: “hoje criaremos Deus”, a Egolatria estava virtualmente fundada. Se Deus é uma criação da nossa atividade prática ou ética, ou seja, obra da mente humana, por que adorá-lo como se realmente existisse a não ser no espírito humano, adorando o homem adoramos o verdadeiro Deus, o Deus absoluto, o Deus não mais desconhecido. Mas não se pode adorar o Homem em geral. A Menschheit[4] é uma abstração, um flatus vocis: o homem autêntico se realiza no indivíduo concreto, ou seja, em cada um de nós.
- A civilização moderna, que aos poucos destruiu as sobras da fantasmagoria transcendental, começou, sem se dar conta, a praticar a Egolatria. O Esporte é a adoração do corpo; o culto da Ciência é substituir-se à onisciência atribuída a Deus; o culto da máquina é um substituto para a onipotência de Deus. O que parecia reservado ao ser perfeito torna-se aos poucos prerrogativa comum dos mortais.
- Digo-lhe, em confidência, que a Egolatria já é praticada inconscientemente pela maioria da humanidade. Trata-se agora de dar-lhe um nome, uma fé e uma consciência. E essa será minha tarefa assim que sair desta caverna de envenenadores.
- Será necessário, dirá o senhor, um culto, mesmo que baseado no moderno senso prático. Já pensei nisso. Todo ególatra mandará fabricar sua própria estátua: em ouro, em bronze, em mármore, de acordo com suas posses. Se não for rico o bastante para contratar um escultor, poderá contentar-se com um retrato a óleo ou até mesmo com uma boa fotografia. Diante desta imagem colocará oferendas e recitará suas orações. Encontraremos ótimas fórmulas para a celebração do Eu nos livros dos idealistas e no Canto do Próprio Eu de Walt Whitman. O banho diário ou semanal será o equivalente do batismo; a refeição substituirá a comunhão; o sono, perda transitória da consciência do Eu, será a penitência. Como o senhor vê, trata-se de uma religião confortável e não muito complicada. Não há outro Deus além do homem, e cada homem é a sua encarnação. Finda a humilhação de inclinar-se diante de forças superiores; finda a hipocrisia de renegar o nosso instinto insopitável. O homem ama a si mesmo; que o confesse abertamente e dê a seu amor, sem medo e sem constrangimento, forma devota e litúrgica. Esteja certo de que o século XX será o século da Egolatria.”
Assim que o loquaz monstrengo terminou sua peroração, olhei bem para ele. E com a fantasia pude vê-lo em adoração diante de uma estátua que reproduzia seu rosto horrendo, seu corpo retorcido. Não pude deixar de rir. O Dr. Mundung não se ofendeu.
- A minha religião – continuou – é uma mensagem de felicidade e não de humilhação. O senhor penetrou no espírito da minha empresa e espero que seja meu profeta na segunda metade da terra.
E dito isso, tocou-me os joelhos com as mãos minúsculas, em ato de consagração. Percebi então que uma mão tinha somente quatro dedos, e a outra seis.
Em Blumenwald, Casa de Repouso, onde mandei um psicoterapeuta restaurar meus nervos cansados, reparei, desde a primeira noite, num homúnculo torto e claudicante que carregava com muita valentia suas várias deformidades. Tinha um olho vendado de preto, o crânio em feitio de cone, o nariz devorado por um lúpus e reduzido a uma cicatriz vermelha, a boca escondida por uma vegetação de mechas cor de cobre desbotado. Esse sujeito entretanto agitava-se mais do que os outros hóspedes, conversava em voz alta com todos, e era encontrado a todo instante, precedido pelas batidas rápidas de sua bengala-cajado. Soube que se chamava Dr. Mundung e que tinha escrito, como três quartos dos alemães, alguns livros.
No segundo dia, enquanto passeava no jardim, agarrou-me e obrigou-me a sentar a seu lado, num banco de madeira.
- O senhor é estrangeiro – sentenciou com uma voz mais grossa do ele próprio, - e sem dúvida veio à Alemanha para aprender. Germania docet[1]. Aqui está a Alma Mater do mundo. Tantas cidades tantas universidades; cada seis habitantes um professor. Até mesmo nessa casa vergonhosa que não é nem um hotel, nem uma pensão, nem uma clínica, nem um sanatório, nem um instituto de cultura, mas onde um charlatão sem escrúpulos vende esperanças e salsicha a caro preço, pode-se encontrar um alimento para o espírito. O senhor certamente conhece meu nome: Dr. Mundung, diplomado em Religionsgeschichte[2], autor de um volume sobre as doutrinas esotéricas dos jezidis, ou adoradores do demônio, de várias Betrachtungen[3] sobre o culto astral entre os hereros, e de uma obra, já hoje clássica, sobre as relações proto-históricas entre as divindades subterrâneas da Frígia e a deusa germânica Frigga. Se me encontro aqui, longe das bibliotecas e dos meus estudos, a culpa é de alguns colegas invejosos que quiseram, com este estratagema, afastar por algum tempo o perigo de que eu concorra a uma cátedra universitária. Minha mulher, que é chinesa e não conhece bem os costumes da sua nova pátria, deixou-se persuadir por eles e... Perdoe-me se falo de assuntos particulares: é um erro, aliás, uma heresia.
- Posso lhe garantir, porém, que nem sequer em Blumenwald perdi meu tempo. Para um estudioso da história das religiões a variedade é uma vantagem; para os homens em geral um inconveniente. Tentou-se criar uma língua universal, mas ninguém conseguiu inventar uma religião realmente para todos.
- O erro consiste nisso: a natureza do homem não foi suficientemente aprofundada. O homem, a despeito de todas as hipocrisias e as retóricas, só ama sinceramente a si próprio, e só respeita e adora o próprio eu. Ele finge, por medo ou por sugestão, venerar os Deuses, os Herois, a Pátria, a Humanidade e todos os outros entes, históricos ou abstratos, que enchem as galerias da história. Estes são na realidade biombos e testas-de-ferro que escondem sua verdadeira fé. Para chegar a uma religião verdadeiramente universal e prática, que todos adotariam alegremente se um profeta corajoso se apresentasse, é necessário levar em conta o centro psicológico da conduta humana.
- A nova e definitiva religião que proponho aos homens é a Egolatria. Cada qual adorará a si próprio, cada qual terá seu Deus pessoal: si mesmo. A Reforma protestante se gabava de fazer de cada homem um sacerdote – não mais intermediários entre a criatura e o Criador. Eu dou um passo adiante: não mais intermediário entre o adorador e o adorado. Cada qual é por si mesmo o seu Deus.
- Juntam-se, desta forma, as vantagens do politeísmo e as do monoteísmo. Cada homem terá um só Deus mas os deuses serão tantos quantos são os homens. E não haverá perigo de cismas porque os ególatras, apesar de concordar no princípio fundamental da nova religião, não cairão nunca, por motivos evidentes, na loucura de adorar um deus estranho, ou seja, uma outra criatura semelhante a eles.
- Esta religião é, ao mesmo tempo, o fruto supremo do idealismo alemão e da mais moderna civilização. Quando Fichte, ao subir um dia na cátedra, anunciou aos ouvintes: “hoje criaremos Deus”, a Egolatria estava virtualmente fundada. Se Deus é uma criação da nossa atividade prática ou ética, ou seja, obra da mente humana, por que adorá-lo como se realmente existisse a não ser no espírito humano, adorando o homem adoramos o verdadeiro Deus, o Deus absoluto, o Deus não mais desconhecido. Mas não se pode adorar o Homem em geral. A Menschheit[4] é uma abstração, um flatus vocis: o homem autêntico se realiza no indivíduo concreto, ou seja, em cada um de nós.
- A civilização moderna, que aos poucos destruiu as sobras da fantasmagoria transcendental, começou, sem se dar conta, a praticar a Egolatria. O Esporte é a adoração do corpo; o culto da Ciência é substituir-se à onisciência atribuída a Deus; o culto da máquina é um substituto para a onipotência de Deus. O que parecia reservado ao ser perfeito torna-se aos poucos prerrogativa comum dos mortais.
- Digo-lhe, em confidência, que a Egolatria já é praticada inconscientemente pela maioria da humanidade. Trata-se agora de dar-lhe um nome, uma fé e uma consciência. E essa será minha tarefa assim que sair desta caverna de envenenadores.
- Será necessário, dirá o senhor, um culto, mesmo que baseado no moderno senso prático. Já pensei nisso. Todo ególatra mandará fabricar sua própria estátua: em ouro, em bronze, em mármore, de acordo com suas posses. Se não for rico o bastante para contratar um escultor, poderá contentar-se com um retrato a óleo ou até mesmo com uma boa fotografia. Diante desta imagem colocará oferendas e recitará suas orações. Encontraremos ótimas fórmulas para a celebração do Eu nos livros dos idealistas e no Canto do Próprio Eu de Walt Whitman. O banho diário ou semanal será o equivalente do batismo; a refeição substituirá a comunhão; o sono, perda transitória da consciência do Eu, será a penitência. Como o senhor vê, trata-se de uma religião confortável e não muito complicada. Não há outro Deus além do homem, e cada homem é a sua encarnação. Finda a humilhação de inclinar-se diante de forças superiores; finda a hipocrisia de renegar o nosso instinto insopitável. O homem ama a si mesmo; que o confesse abertamente e dê a seu amor, sem medo e sem constrangimento, forma devota e litúrgica. Esteja certo de que o século XX será o século da Egolatria.”
Assim que o loquaz monstrengo terminou sua peroração, olhei bem para ele. E com a fantasia pude vê-lo em adoração diante de uma estátua que reproduzia seu rosto horrendo, seu corpo retorcido. Não pude deixar de rir. O Dr. Mundung não se ofendeu.
- A minha religião – continuou – é uma mensagem de felicidade e não de humilhação. O senhor penetrou no espírito da minha empresa e espero que seja meu profeta na segunda metade da terra.
E dito isso, tocou-me os joelhos com as mãos minúsculas, em ato de consagração. Percebi então que uma mão tinha somente quatro dedos, e a outra seis.
[1] A Alemanha ensina.
[2] História da Religião
[3] Meditações
[4] Humanidade
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