sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS

by R.C. Sproul

O filósofo do século XIX Friedrich Nietzsche é famoso por sua declaração de que "Deus está morto." Esse breve ditado não conta toda a história. De acordo com Nietzsche, a causa da morte da Divindade foi a compaixão. Ele disse:"Deus está morto; Ele morreu de pena." Mas antes que o Deus, que era o Deus judaico-cristão, perecesse, Nietzsche dizia que havia uma multidão de divindades que existia, como aquelas que residiam no Monte Olimpo. Ou seja, ao mesmo tempo, havia uma pluralidade de deuses. Todo os outros deuses morreram quando, um dia, o Deus judaico, Yahweh, se pôs de pé no meio da assembleia dos deuses e disse: "Não terás outros deuses diante de mim." Ao ouvir isto, de acordo com o resumo satírico de Nietzsche, todo os outros deuses e deusas morreram. Morreram de rir. 
Em nossos dias, onde reina o pluralismo na cultura, há tanta hostilidade satírica à idéia de um Deus como havia na sátira de Nietzsche. Mas hoje, aquela repugnância ao monoteísmo não é um assunto muito sério. Na cultura do pluralismo, a principal virtude é a tolerância, que é a noção de que todas as opiniões religiosas devem ser toleradas, todas as opiniões políticas devem ser toleradas. A única coisa que não pode ser tolerada é uma reivindicação de exclusividade. Há um antipatia embutida, inerente a todas as reivindicações de exclusividade. Dizer que há um só Deus é repulsivo para os pluralistas. Dizer que um Deus não se revelou por uma pluralidade de avatares na história também é repugnante. Um Deus único, com um único Filho é uma divindade que acrescenta insulto à injúria, reivindicando um Filho exclusivo. Não pode haver apenas um só Mediador entre Deus e o homem. Deve haver muitos, de acordo com os pluralistas de hoje. É igualmente um truísmo entre os pluralistas que se há um caminho para Deus, deve haver muitos caminhos para Deus, e certamente não se pode admitir que há apenas um caminho. As reivindicações exclusivas do cristianismo em termos de Deus, em termos de Cristo, em termos de salvação, não podem viver em coexistência pacífica com os pluralistas. 
Além da existência de Deus, de Seu Filho e de uma forma singular de salvação, há também a rejeição de qualquer reivindicação de ter ou possuir uma fonte exclusiva de revelação divina. Na época da Reforma, os assim chamados solas foram afirmados. Era dito que a justificação é pela fé somente (sola fide), que é através de Cristo somente (solus Christus), que é através da graça somente (sola gratia), e que é para a glória de Deus somente (soli Deo gloria). Mas talvez mais repugnante para o pluralista moderno é a reivindicação exclusiva do sola Scriptura. A ideia do sola Scriptura é que há apenas uma fonte escrita da revelação divina, a qual não pode ser colocada em paralelo com declarações confessionais, credos ou tradições da igreja. A Escritura apenas tem a autoridade de prender a consciência, precisamente porque apenas ela é a revelação escrita do Deus Todo-poderoso. As implicações do sola Scriptura para o pluralismo são muitas. Uma das mais importantes é esta: o sola Scriptura carrega uma negação fundamental do caráter revelatório de todos os outros livros religiosos. Um defensor do sola Scriptura não crê que a palavra revelada de Deus seja encontrada na Bíblia e no Livro dos Mórmons, na Bíblia e no Corão, na Bíblia e nos Upanishads[1], na Bíblia e no Bhadavad Gita[2]; ao contrário, a fé cristã sustenta-se na singular e exclusiva reivindicação de que a Bíblia e somente a Bíblia é a palavra escrita de Deus.

O lema dos Estados Unidos é pluribus unum[3]. Contudo, desde a ascensão da ideologia pluralista, o real Unum desse lema tem sido arrancado de seu fundamento. O que impele o pluralismo é o antecedente filosófico do relativismo. Toda verdade é relativa; portanto, nenhuma ideia ou fonte pode ser vista como tendo qualquer tipo de supremacia. Construída no nosso sistema de lei está a ideia da igual tolerância sob a lei de todas as religiões. Na mente das pessoas há uma distância curta da igual tolerância sob a lei para a igual validade. O princípio de que todas as religiões deveriam ser tratadas igualmente sob a lei e ter direitos iguais não carrega consigo a necessária inferência de que, portanto, todas as religiões são validas. Mesmo um exame superficial e comparativo das religiões mundiais revela pontos de contradição radical entre elas, e, a menos que alguém esteja preparado para afirmar a verdade igual de contraditórios, não pode ser capaz de abraçar esta suposição falaciosa.

Tristemente, com a filosofia do relativismo e a filosofia do pluralismo, a ciência da lógica não mais importa. A lógica é levada para a porta e firmemente chutada da casa para a rua. Não há espaço para a lógica em nenhum sistema de pluralismo e relativismo. Na verdade, é impróprio chamá-los de sistemas, porque um sistema traz consigo a idéia de uma visão da verdade consistente e coerente que é inaceitável para o pluralista. O fato de que as pessoas rejeitam as reivindicações exclusivas da verdade não invalida estas reivindicações. É o dever do cristão se apegar firmemente a unicidade de Deus e do Seu Cristo e não se comprometer com os advogados do pluralismo.


 

[1] Conjunto de textos filosóficos do Hinduísmo.

[2] Texto religioso do Hinduísmo.

[3] Termo latino que significa: De todos, um. Refere-se à integração das treze colônias independentes que deram origem aos Estados Unidos moderno.


 

Traduzido livremente por Tiago Cunha

Texto original: Twilight of the Idols

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Princípio ou Costume?

"Ou não vos ensina a própria natureza ser desonroso para o homem usar cabelo comprido? E que, tratando-se da mulher, é para ela uma glória? Pois o cabelo lhe foi dado em lugar de mantilha." (vv. 14–15).

1 Coríntios 11:1–16

Herman Melville é mais conhecido por seu romance Moby Dick, mas o autor escreveu outros trabalhos também, incluindo o romance Redburn. Este nos conta sobre um jovem navegador que viaja de Massachusetts para a cidade de Liverpool, na Inglaterra. Quando chega a Liverpool, o jovem tenta se situar na cidade usando um mapa que seu pai usava ao viajar. Contudo, a cidade havia mudado muito desde aquela época, sendo, portanto, difícil seguir o mapa como guia.

Às vezes, podemos muito bem relacionar o navegador de Redburn quando tentamos aplicar a Bíblia às nossas atuais circunstâncias. A Escritura vem de uma época que parece muito diferente da nossa. É, de muitas formas, um mundo estrangeiro, o que complica nossas tentativas de seguir a Palavra de Deus. Obedecer a revelação do Senhor, contudo, não é impossível, enquanto lembrarmos que o sentido original do texto bíblico determina a fiel aplicação hoje. De outra forma, podemos torcer a Escritura para fazê-la sancionar qualquer coisa. Determinar o sentido original requer de nós que estudemos o contexto de cada texto bíblico. Isto facilita a distinção entre princípios e costumes. Um princípio é um padrão dado por Deus válido em qualquer tempo e lugar. Os Dez Mandamentos são excelentes exemplos de princípios. Ao contrário dos princípios, os costumes não são eternos. Vamos ilustrar a diferença com o exemplo do pagamento do dízimo. Usamos dinheiro para pagar nossos dízimos e ofertas, e dizimar é um princípio perpétuo. Contudo, a moeda usada para pagar o dízimo é um costume – não usamos o siclo nos Estados Unidos hoje (veja Nm 18).

Separar princípio de costume é difícil às vezes. Por exemplo, Paulo, na passagem de hoje, aparentemente argumenta em princípio contra os homens terem cabelos longos, mas não especifica o que conta como cabelo longo, provavelmente porque o comprimento do cabelo é um costume (1 Co 11. 1-16). O comprimento é uma medida relativa a um padrão, e o que poderia ser longo em uma cultura poderia ser curto em outra. Um homem que tem cabelo de, digamos, 30 cm de comprimento não tem cabelo excessivamente longo se a maior parte das mulheres na sua cultura tiver cabelo com 90 cm de comprimento. De qualquer forma, determinar princípios bíblicos não é sempre fácil como gostaríamos que fosse, portanto não devemos ditar aos outros crentes o que eles podem e não podem fazer em assuntos que são nebulosos.

Coram Deo

Quando nós e a maior parte de nossa tradição estivermos incertos sobre se um mandamento particular é um princípio ou costume, então é sábio para nós, como indivíduos, tratá-lo como princípio. Não deveríamos, contudo, prender a consciência de outros que acham que o mesmo mandamento é apenas costume quando houve muita disputa sobre ele. Que possamos ser fiéis e honestos a nossas próprias consciências, mas não desprezar outros que possam honestamente discordar.

Traduzido livremente por Tiago Cunha 

Texto original: http://www.ligonier.org/learn/devotionals/principle-or-custom/

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Relativismo Moral

" Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade?'"

João 18:38a

Temos discutido os Dez Mandamentos nas ultimas semanas como parte de nosso estudo de como a antiga aliança é cumprida na nova. Estes Dez Mandamentos possuem um papel fundamental no pensamento ético cristão, especialmente dentro da tradição reformada, a qual tradicionalmente tem sido conhecida por sua alta estima pela lei de Deus revelada a Moises. Dada esta conexão entre os dez mandamentos e a ética crista, daremos agora uma breve pausa de nosso estudo do cumprimento da aliança e daremos uma espiada mais ampla na teoria e prática da ética usando a Ética Cristã, uma serie de ensino do dr. R. C. Sproul.

Dificilmente alguém hoje negaria que no Ocidente moderno, o modelo cultural prevalecente é o relativismo moral. A maioria das pessoas nos Estados Unidos, por exemplo, negaria que haja qualquer verdade absoluta, especialmente no que diz respeito a questões de comportamento pessoal e privado. O problema é ainda mais avançado na Europa. A maior parte das pessoas tem uma atitude do tipo "viva e deixe viver", e sustentam opiniões como, "O que é certo para você pode não ser certo para mim, e o que é certo para mim pode não ser certo para você."

Uma confusão dos termos ética e moral jaz na raiz de todo este relativismo. A ética tem sido tradicionalmente considerada uma ciência normativa que estuda os fundamentos da civilização e as normas que governam nossas vidas. Ela tem se empenhado em descobrir o que "devemos fazer". Por outro lado, a moralidade tem sido historicamente entendida como uma ciência descritiva, olhando para aquilo que as pessoas estão realmente praticando em uma dada cultura. Ela olha para o que "é" e não necessariamente para o que "deveria ser".

A maior parte das pessoas hoje reverteu a ordem da ética e moral. Muitos consideram que seja lá o que a maioria estiver fazendo, está correto, enquanto não houver prejuízo claro para a maioria. Confundimos "o que é" com "o que deveria ser", crendo que o que está acontecendo é o que deveria acontecer.

Estudantes da Escritura, contudo, sabem que o Senhor sempre distingue entre o que as pessoas estão realmente fazendo e o que elas deveriam estar fazendo. Como o dr. Sproul frequentemente nos relembra, "Deus não governa por referendo." As ações da maioria não são necessariamente boas. O que a sociedade nos permite fazer pode não ser o que a palavra de Deus nos permite fazer, e nossa ética deve ser sempre baseada neste ultimo padrão.

Coram Deo

Sendo cristãos no mundo, enfrentamos o desafio de ter nossa ética moldada pela cultura ao nosso redor. É por isso que devemos ser cuidadosos para discernir as mensagens que nos estão sendo enviadas e avaliá-las pelos padrões da Palavra de Deus. Nossa era guiada pela mídia torna isto ainda mais difícil. Que possamos nos esforçar para não abraçar aquilo que as vozes que nos circundam dizem que é bom, mas chamar de bom apenas o que o Senhor aprova.

Traduzido livremente por Tiago Cunha

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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A EGOLATRIA



Por Giovanni Papini




Jena, 8 de julho

Em Blumenwald, Casa de Repouso, onde mandei um psicoterapeuta restaurar meus nervos cansados, reparei, desde a primeira noite, num homúnculo torto e claudicante que carregava com muita valentia suas várias deformidades. Tinha um olho vendado de preto, o crânio em feitio de cone, o nariz devorado por um lúpus e reduzido a uma cicatriz vermelha, a boca escondida por uma vegetação de mechas cor de cobre desbotado. Esse sujeito entretanto agitava-se mais do que os outros hóspedes, conversava em voz alta com todos, e era encontrado a todo instante, precedido pelas batidas rápidas de sua bengala-cajado. Soube que se chamava Dr. Mundung e que tinha escrito, como três quartos dos alemães, alguns livros.
No segundo dia, enquanto passeava no jardim, agarrou-me e obrigou-me a sentar a seu lado, num banco de madeira.
- O senhor é estrangeiro – sentenciou com uma voz mais grossa do ele próprio, - e sem dúvida veio à Alemanha para aprender. Germania docet[1]. Aqui está a Alma Mater do mundo. Tantas cidades tantas universidades; cada seis habitantes um professor. Até mesmo nessa casa vergonhosa que não é nem um hotel, nem uma pensão, nem uma clínica, nem um sanatório, nem um instituto de cultura, mas onde um charlatão sem escrúpulos vende esperanças e salsicha a caro preço, pode-se encontrar um alimento para o espírito. O senhor certamente conhece meu nome: Dr. Mundung, diplomado em Religionsgeschichte[2], autor de um volume sobre as doutrinas esotéricas dos jezidis, ou adoradores do demônio, de várias Betrachtungen[3] sobre o culto astral entre os hereros, e de uma obra, já hoje clássica, sobre as relações proto-históricas entre as divindades subterrâneas da Frígia e a deusa germânica Frigga. Se me encontro aqui, longe das bibliotecas e dos meus estudos, a culpa é de alguns colegas invejosos que quiseram, com este estratagema, afastar por algum tempo o perigo de que eu concorra a uma cátedra universitária. Minha mulher, que é chinesa e não conhece bem os costumes da sua nova pátria, deixou-se persuadir por eles e... Perdoe-me se falo de assuntos particulares: é um erro, aliás, uma heresia.
- Posso lhe garantir, porém, que nem sequer em Blumenwald perdi meu tempo. Para um estudioso da história das religiões a variedade é uma vantagem; para os homens em geral um inconveniente. Tentou-se criar uma língua universal, mas ninguém conseguiu inventar uma religião realmente para todos.
- O erro consiste nisso: a natureza do homem não foi suficientemente aprofundada. O homem, a despeito de todas as hipocrisias e as retóricas, só ama sinceramente a si próprio, e só respeita e adora o próprio eu. Ele finge, por medo ou por sugestão, venerar os Deuses, os Herois, a Pátria, a Humanidade e todos os outros entes, históricos ou abstratos, que enchem as galerias da história. Estes são na realidade biombos e testas-de-ferro que escondem sua verdadeira fé. Para chegar a uma religião verdadeiramente universal e prática, que todos adotariam alegremente se um profeta corajoso se apresentasse, é necessário levar em conta o centro psicológico da conduta humana.
- A nova e definitiva religião que proponho aos homens é a Egolatria. Cada qual adorará a si próprio, cada qual terá seu Deus pessoal: si mesmo. A Reforma protestante se gabava de fazer de cada homem um sacerdote – não mais intermediários entre a criatura e o Criador. Eu dou um passo adiante: não mais intermediário entre o adorador e o adorado. Cada qual é por si mesmo o seu Deus.
- Juntam-se, desta forma, as vantagens do politeísmo e as do monoteísmo. Cada homem terá um só Deus mas os deuses serão tantos quantos são os homens. E não haverá perigo de cismas porque os ególatras, apesar de concordar no princípio fundamental da nova religião, não cairão nunca, por motivos evidentes, na loucura de adorar um deus estranho, ou seja, uma outra criatura semelhante a eles.
- Esta religião é, ao mesmo tempo, o fruto supremo do idealismo alemão e da mais moderna civilização. Quando Fichte, ao subir um dia na cátedra, anunciou aos ouvintes: “hoje criaremos Deus”, a Egolatria estava virtualmente fundada. Se Deus é uma criação da nossa atividade prática ou ética, ou seja, obra da mente humana, por que adorá-lo como se realmente existisse a não ser no espírito humano, adorando o homem adoramos o verdadeiro Deus, o Deus absoluto, o Deus não mais desconhecido. Mas não se pode adorar o Homem em geral. A Menschheit[4] é uma abstração, um flatus vocis: o homem autêntico se realiza no indivíduo concreto, ou seja, em cada um de nós.
- A civilização moderna, que aos poucos destruiu as sobras da fantasmagoria transcendental, começou, sem se dar conta, a praticar a Egolatria. O Esporte é a adoração do corpo; o culto da Ciência é substituir-se à onisciência atribuída a Deus; o culto da máquina é um substituto para a onipotência de Deus. O que parecia reservado ao ser perfeito torna-se aos poucos prerrogativa comum dos mortais.
- Digo-lhe, em confidência, que a Egolatria já é praticada inconscientemente pela maioria da humanidade. Trata-se agora de dar-lhe um nome, uma fé e uma consciência. E essa será minha tarefa assim que sair desta caverna de envenenadores.
- Será necessário, dirá o senhor, um culto, mesmo que baseado no moderno senso prático. Já pensei nisso. Todo ególatra mandará fabricar sua própria estátua: em ouro, em bronze, em mármore, de acordo com suas posses. Se não for rico o bastante para contratar um escultor, poderá contentar-se com um retrato a óleo ou até mesmo com uma boa fotografia. Diante desta imagem colocará oferendas e recitará suas orações. Encontraremos ótimas fórmulas para a celebração do Eu nos livros dos idealistas e no Canto do Próprio Eu de Walt Whitman. O banho diário ou semanal será o equivalente do batismo; a refeição substituirá a comunhão; o sono, perda transitória da consciência do Eu, será a penitência. Como o senhor vê, trata-se de uma religião confortável e não muito complicada. Não há outro Deus além do homem, e cada homem é a sua encarnação. Finda a humilhação de inclinar-se diante de forças superiores; finda a hipocrisia de renegar o nosso instinto insopitável. O homem ama a si mesmo; que o confesse abertamente e dê a seu amor, sem medo e sem constrangimento, forma devota e litúrgica. Esteja certo de que o século XX será o século da Egolatria.”
Assim que o loquaz monstrengo terminou sua peroração, olhei bem para ele. E com a fantasia pude vê-lo em adoração diante de uma estátua que reproduzia seu rosto horrendo, seu corpo retorcido. Não pude deixar de rir. O Dr. Mundung não se ofendeu.
- A minha religião – continuou – é uma mensagem de felicidade e não de humilhação. O senhor penetrou no espírito da minha empresa e espero que seja meu profeta na segunda metade da terra.
E dito isso, tocou-me os joelhos com as mãos minúsculas, em ato de consagração. Percebi então que uma mão tinha somente quatro dedos, e a outra seis.
[1] A Alemanha ensina.
[2] História da Religião
[3] Meditações
[4] Humanidade

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

EXISTE ÉTICA SEM DEUS?


Fiodor M. Dostoievski talvez seja o mais famoso dos romancistas russos, autor de clássicos que há anos atraem a atenção de milhões de leitores no mundo inteiro como Crime e Castigo e Os irmãos Karamazovi. Esta última obra, inclusive, foi reputada por Sigmund Freud como o maior romance já escrito. Um episódio em especial influenciou toda a carreira de Dostoievski: em 1849 ele foi preso e condenado ao fuzilamento por defender ideias socialistas em uma Rússia ainda governada pelos czares. Já nos preparativos para a execução, teve a pena comutada pelo czar e transformada em trabalhos forçados na Sibéria. A lembrança angustiada desse episódio o seguiria pela vida inteira. Na Sibéria, começou a sofrer de epilepsia, uma doença que durante muito tempo o perseguiu.
Uma frase em particular se tornou muito conhecida como um resumo da obra dostoievskiana: “Se Deus não existe, tudo é permitido.” Na verdade, essa não é a sentença original de Dostoievski, mas uma paráfrase feita pelo filósofo francês Jean Paul Sartre no livro O Existencialismo é um Humanismo. Dostoievski expõe seu argumento ao longo do livro Os irmãos Karamazovi pela boca de Ivan Karamazov, que é ele próprio um ateu niilista que pensa que sem a crença na existência de Deus não haveria civilização. Ele cita a famosa frase de Voltaire: “se Deus não existisse, precisaríamos inventá-lo.”
Ivan também é citado por outro personagem como tendo dito: “para o indivíduo que não crê em Deus, nem em sua imortalidade, a lei moral da natureza devia imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado até a perversidade, devia não somente ser autorizado, mas reconhecido como a saída mais necessária, a mais razoável e quase a mais nobre.” O irmão de Ivan, Dimítri, conclui: “se bem entendi, ‘a perversidade deve ser não somente autorizada, mas reconhecida como a saída mais necessária e a mais razoável de cada ateu. Haverei de lembrar-me!”
Durante a leitura, fica patente o poder que a crença na existência de Deus e na imortalidade da alma tem sobre as escolhas morais dos personagens. Tudo se desdobra para que ocorra uma tragédia na família Karamazovi: o suposto parricídio cometido por Dmitri contra o patriarca da família, o debochado e luxurioso Fiodor Karamazov.
Mas permanece a pergunta: se Deus não existisse, tudo seria mesmo permitido? Ou em outras palavras, a existência de Deus é absolutamente necessária para o estabelecimento de normas éticas absolutas e universais? A maior parte dos ateus e agnósticos diz que não, e aponta para a o fato de que os mesmos cristãos que afirmam isso foram responsáveis por muitas guerras e por uma das maiores aberrações da história, a Inquisição. Mas isso não refuta o argumento, uma vez que é possível ser um cristão nominal e não praticar os preceitos do cristianismo.
O fundamento último da ética bíblica é o Deus que soberanamente controla toda a realidade. Visto que o homem é parte dessa realidade, deve se submeter às normas do seu Criador sob risco de resistir ao Supremo Governador do universo. Mas se não existe tal Criador não existe uma Revelação, nem uma norma pré-estabelecida. A ética se torna criação humana consensual, algo sobre o que os homens concordam, mas que pode mudar ao sabor da conveniência. Não existe certo ou errado. É errado exterminar 6 milhões de pessoas em nome de uma pureza racial? É errado matar quase 50 milhões em nome da ideologia comunista? O infanticídio e o aborto são condenáveis? A resposta sempre será: depende. De quê? Do momento, da conveniência, do lugar. A mãe assassinar seu bebê é errado em São Paulo, mas é algo cultural numa aldeia indígena. Essa é a ética dos nossos antropólogos. Esse era o temor de Dostoievski quando ele afirmou: “se Deus não existe, eu sou Deus.”
Vemos assim que, sem Deus, tudo o que resta é a incerteza. Friedrich Nietzsche, o filósofo que decretou a morte de Deus, o homem que sabia zombar mas não sabia sorrir, mostra poeticamente a desorientação do homem ao descobrir que Deus está “morto”, ou seja, que não existe mais plausibilidade na fé do Deus cristão: “Mas como fizemos isso?" Pergunta-se Nietzsche na sua Gaia Ciência, "Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte inteiro? Que fizemos quando desatamos esta terra do seu Sol? Para onde vai ela agora? Para onde vamos nós mesmos? Não estamos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para os lados, em todas as direções? Haverá ainda um ‘em cima’ e um ‘embaixo’? não estamos errando através de um vazio infinito? Não sentimos na face o sopro do vazio? Não anoitece eternamente?”
Eis o que restou: o homem errante, sem propósito, sem objetivo, sem restrições, sem fé, sem Deus. Nietzsche morreu louco, mas as suas palavras foram proféticas. Tudo o que resta ao homem sem Deus é o vazio.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

VALE ABRE PROGRAMA DE ESPECIALIZAÇÃO EM PELOTIZAÇÃO E ENGENHARIA FERROVIÁRIA

A Vale inscreve engenheiros interessados em participar de seu Programa de Especialização Profissional 2010, que oferece bolsas de pós-graduação, visando capacitar profissionais para o atendimento das demandas onde a empresa atua.por profissionais especializados.

Atualmente, estão abertas 46 vagas para especialização em Pelotização, a ser realizada em Minas Gerais e, Engenharia Ferroviária, no Espírito Santo. Podem concorrer pessoas de todo o País, que tenham concluído o nível superior há, no máximo, três anos.


Os curso têm duração de três meses e exigem dedicação integral. Os alunos receberão ainda uma bolsa de estudo mensal no valor de R$ 3 mil. As inscrições podem ser feitas, até 23 de maio, pelo site
www.vale.com/oportunidades.

Pós-graduação em Pelotização


Pelotização é processo de transformação dos finos de minério de ferro em pelotas, o segundo mineral mais comercializado pela Vale, que é utilizado em diversos processos industriais. A Vale possui operações de pelotização em MG, MA e ES. Também está construindo uma planta pelotizadora em Omã, Oriente Médio.


O curso acontecerá em Ouro Preto e visa desenvolver uma visão técnica geral do processo de pelotização, contribuindo para a aquisição de conhecimentos e habilidades específicas relacionadas. O programa abrangerá conceitos, ferramentas e metodologias de apoio à gestão deste processo.


O curso oferece 25 vagas e tem carga horária de 420 horas. A formação será ministrada em parceria com a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e o início das aulas está previsto para 19 de julho.


Pós-Graduação em Engenharia Ferroviária


O curso visa contribuir para a aquisição de conhecimentos e habilidades específicas em transportes ferroviários, abrangendo conceitos, ferramentas e metodologias de apoio à gestão. O foco será em operação, manutenção e gestão de ferrovias.

Será oferecida uma turma com 21 participantes, que acontecerá em Vitoria (ES), com carga horária de 420 horas.

A formação será ministrada em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo e o início das aulas está previsto para 2 de agosto.

sábado, 10 de abril de 2010

LEARN GERMAN FOR FREE!


A pátria de Kant, Goethe, Lutero, Hegel e Beethoven possui um dos legados culturais mais ricos da humanidade. Os alemães geralmente são escritores extremamente prolixos e estão na vanguarda do pensamento filosófico e científico mundial.
O alemão, porém, é reputado como um dos idiomas mais complicados de se aprender, e isso não é exagero. Mas, para quem gosta de desafio, existem alguns sites ótimos (e gratuitos) que ajudam no aprendizado dessa língua fantástica.
Um deles é o Livemocha (www.livemocha.com), que possui lições gratuitas de diversos idiomas além do alemão. Você só precisa criar um perfil, fazer as lições e adicionar amigos nativos para lhe ajudar na correção dos exercícios escritos e em áudio.
Outro site muito bom pertence a Deutsche Welle, uma conhecida empresa de radiodifusão alemã. No link Learning German há diversas opções de cursos, tanto para quem já tem algum conhecimento do alemão quanto para quem é iniciante. Um dos melhores é o Deutsch Interaktiv, um curso que abrange o nível iniciante e intermediário. A inscrição é 100% gratuita e ainda é oferecido um certificado ao final do curso. Se você dedicar uma hora por dia, em pouco tempo estará falando frases em alemão e descobrindo que, afinal, o idioma não é tão impenetrável assim.
Bom estudo!