quinta-feira, 5 de agosto de 2010

EXISTE ÉTICA SEM DEUS?


Fiodor M. Dostoievski talvez seja o mais famoso dos romancistas russos, autor de clássicos que há anos atraem a atenção de milhões de leitores no mundo inteiro como Crime e Castigo e Os irmãos Karamazovi. Esta última obra, inclusive, foi reputada por Sigmund Freud como o maior romance já escrito. Um episódio em especial influenciou toda a carreira de Dostoievski: em 1849 ele foi preso e condenado ao fuzilamento por defender ideias socialistas em uma Rússia ainda governada pelos czares. Já nos preparativos para a execução, teve a pena comutada pelo czar e transformada em trabalhos forçados na Sibéria. A lembrança angustiada desse episódio o seguiria pela vida inteira. Na Sibéria, começou a sofrer de epilepsia, uma doença que durante muito tempo o perseguiu.
Uma frase em particular se tornou muito conhecida como um resumo da obra dostoievskiana: “Se Deus não existe, tudo é permitido.” Na verdade, essa não é a sentença original de Dostoievski, mas uma paráfrase feita pelo filósofo francês Jean Paul Sartre no livro O Existencialismo é um Humanismo. Dostoievski expõe seu argumento ao longo do livro Os irmãos Karamazovi pela boca de Ivan Karamazov, que é ele próprio um ateu niilista que pensa que sem a crença na existência de Deus não haveria civilização. Ele cita a famosa frase de Voltaire: “se Deus não existisse, precisaríamos inventá-lo.”
Ivan também é citado por outro personagem como tendo dito: “para o indivíduo que não crê em Deus, nem em sua imortalidade, a lei moral da natureza devia imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado até a perversidade, devia não somente ser autorizado, mas reconhecido como a saída mais necessária, a mais razoável e quase a mais nobre.” O irmão de Ivan, Dimítri, conclui: “se bem entendi, ‘a perversidade deve ser não somente autorizada, mas reconhecida como a saída mais necessária e a mais razoável de cada ateu. Haverei de lembrar-me!”
Durante a leitura, fica patente o poder que a crença na existência de Deus e na imortalidade da alma tem sobre as escolhas morais dos personagens. Tudo se desdobra para que ocorra uma tragédia na família Karamazovi: o suposto parricídio cometido por Dmitri contra o patriarca da família, o debochado e luxurioso Fiodor Karamazov.
Mas permanece a pergunta: se Deus não existisse, tudo seria mesmo permitido? Ou em outras palavras, a existência de Deus é absolutamente necessária para o estabelecimento de normas éticas absolutas e universais? A maior parte dos ateus e agnósticos diz que não, e aponta para a o fato de que os mesmos cristãos que afirmam isso foram responsáveis por muitas guerras e por uma das maiores aberrações da história, a Inquisição. Mas isso não refuta o argumento, uma vez que é possível ser um cristão nominal e não praticar os preceitos do cristianismo.
O fundamento último da ética bíblica é o Deus que soberanamente controla toda a realidade. Visto que o homem é parte dessa realidade, deve se submeter às normas do seu Criador sob risco de resistir ao Supremo Governador do universo. Mas se não existe tal Criador não existe uma Revelação, nem uma norma pré-estabelecida. A ética se torna criação humana consensual, algo sobre o que os homens concordam, mas que pode mudar ao sabor da conveniência. Não existe certo ou errado. É errado exterminar 6 milhões de pessoas em nome de uma pureza racial? É errado matar quase 50 milhões em nome da ideologia comunista? O infanticídio e o aborto são condenáveis? A resposta sempre será: depende. De quê? Do momento, da conveniência, do lugar. A mãe assassinar seu bebê é errado em São Paulo, mas é algo cultural numa aldeia indígena. Essa é a ética dos nossos antropólogos. Esse era o temor de Dostoievski quando ele afirmou: “se Deus não existe, eu sou Deus.”
Vemos assim que, sem Deus, tudo o que resta é a incerteza. Friedrich Nietzsche, o filósofo que decretou a morte de Deus, o homem que sabia zombar mas não sabia sorrir, mostra poeticamente a desorientação do homem ao descobrir que Deus está “morto”, ou seja, que não existe mais plausibilidade na fé do Deus cristão: “Mas como fizemos isso?" Pergunta-se Nietzsche na sua Gaia Ciência, "Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte inteiro? Que fizemos quando desatamos esta terra do seu Sol? Para onde vai ela agora? Para onde vamos nós mesmos? Não estamos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para os lados, em todas as direções? Haverá ainda um ‘em cima’ e um ‘embaixo’? não estamos errando através de um vazio infinito? Não sentimos na face o sopro do vazio? Não anoitece eternamente?”
Eis o que restou: o homem errante, sem propósito, sem objetivo, sem restrições, sem fé, sem Deus. Nietzsche morreu louco, mas as suas palavras foram proféticas. Tudo o que resta ao homem sem Deus é o vazio.

Um comentário:

  1. texto profundo e extremamente necessário, especialmente nesta nossa sociedade relativista e niilista...

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