sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS

by R.C. Sproul

O filósofo do século XIX Friedrich Nietzsche é famoso por sua declaração de que "Deus está morto." Esse breve ditado não conta toda a história. De acordo com Nietzsche, a causa da morte da Divindade foi a compaixão. Ele disse:"Deus está morto; Ele morreu de pena." Mas antes que o Deus, que era o Deus judaico-cristão, perecesse, Nietzsche dizia que havia uma multidão de divindades que existia, como aquelas que residiam no Monte Olimpo. Ou seja, ao mesmo tempo, havia uma pluralidade de deuses. Todo os outros deuses morreram quando, um dia, o Deus judaico, Yahweh, se pôs de pé no meio da assembleia dos deuses e disse: "Não terás outros deuses diante de mim." Ao ouvir isto, de acordo com o resumo satírico de Nietzsche, todo os outros deuses e deusas morreram. Morreram de rir. 
Em nossos dias, onde reina o pluralismo na cultura, há tanta hostilidade satírica à idéia de um Deus como havia na sátira de Nietzsche. Mas hoje, aquela repugnância ao monoteísmo não é um assunto muito sério. Na cultura do pluralismo, a principal virtude é a tolerância, que é a noção de que todas as opiniões religiosas devem ser toleradas, todas as opiniões políticas devem ser toleradas. A única coisa que não pode ser tolerada é uma reivindicação de exclusividade. Há um antipatia embutida, inerente a todas as reivindicações de exclusividade. Dizer que há um só Deus é repulsivo para os pluralistas. Dizer que um Deus não se revelou por uma pluralidade de avatares na história também é repugnante. Um Deus único, com um único Filho é uma divindade que acrescenta insulto à injúria, reivindicando um Filho exclusivo. Não pode haver apenas um só Mediador entre Deus e o homem. Deve haver muitos, de acordo com os pluralistas de hoje. É igualmente um truísmo entre os pluralistas que se há um caminho para Deus, deve haver muitos caminhos para Deus, e certamente não se pode admitir que há apenas um caminho. As reivindicações exclusivas do cristianismo em termos de Deus, em termos de Cristo, em termos de salvação, não podem viver em coexistência pacífica com os pluralistas. 
Além da existência de Deus, de Seu Filho e de uma forma singular de salvação, há também a rejeição de qualquer reivindicação de ter ou possuir uma fonte exclusiva de revelação divina. Na época da Reforma, os assim chamados solas foram afirmados. Era dito que a justificação é pela fé somente (sola fide), que é através de Cristo somente (solus Christus), que é através da graça somente (sola gratia), e que é para a glória de Deus somente (soli Deo gloria). Mas talvez mais repugnante para o pluralista moderno é a reivindicação exclusiva do sola Scriptura. A ideia do sola Scriptura é que há apenas uma fonte escrita da revelação divina, a qual não pode ser colocada em paralelo com declarações confessionais, credos ou tradições da igreja. A Escritura apenas tem a autoridade de prender a consciência, precisamente porque apenas ela é a revelação escrita do Deus Todo-poderoso. As implicações do sola Scriptura para o pluralismo são muitas. Uma das mais importantes é esta: o sola Scriptura carrega uma negação fundamental do caráter revelatório de todos os outros livros religiosos. Um defensor do sola Scriptura não crê que a palavra revelada de Deus seja encontrada na Bíblia e no Livro dos Mórmons, na Bíblia e no Corão, na Bíblia e nos Upanishads[1], na Bíblia e no Bhadavad Gita[2]; ao contrário, a fé cristã sustenta-se na singular e exclusiva reivindicação de que a Bíblia e somente a Bíblia é a palavra escrita de Deus.

O lema dos Estados Unidos é pluribus unum[3]. Contudo, desde a ascensão da ideologia pluralista, o real Unum desse lema tem sido arrancado de seu fundamento. O que impele o pluralismo é o antecedente filosófico do relativismo. Toda verdade é relativa; portanto, nenhuma ideia ou fonte pode ser vista como tendo qualquer tipo de supremacia. Construída no nosso sistema de lei está a ideia da igual tolerância sob a lei de todas as religiões. Na mente das pessoas há uma distância curta da igual tolerância sob a lei para a igual validade. O princípio de que todas as religiões deveriam ser tratadas igualmente sob a lei e ter direitos iguais não carrega consigo a necessária inferência de que, portanto, todas as religiões são validas. Mesmo um exame superficial e comparativo das religiões mundiais revela pontos de contradição radical entre elas, e, a menos que alguém esteja preparado para afirmar a verdade igual de contraditórios, não pode ser capaz de abraçar esta suposição falaciosa.

Tristemente, com a filosofia do relativismo e a filosofia do pluralismo, a ciência da lógica não mais importa. A lógica é levada para a porta e firmemente chutada da casa para a rua. Não há espaço para a lógica em nenhum sistema de pluralismo e relativismo. Na verdade, é impróprio chamá-los de sistemas, porque um sistema traz consigo a idéia de uma visão da verdade consistente e coerente que é inaceitável para o pluralista. O fato de que as pessoas rejeitam as reivindicações exclusivas da verdade não invalida estas reivindicações. É o dever do cristão se apegar firmemente a unicidade de Deus e do Seu Cristo e não se comprometer com os advogados do pluralismo.


 

[1] Conjunto de textos filosóficos do Hinduísmo.

[2] Texto religioso do Hinduísmo.

[3] Termo latino que significa: De todos, um. Refere-se à integração das treze colônias independentes que deram origem aos Estados Unidos moderno.


 

Traduzido livremente por Tiago Cunha

Texto original: Twilight of the Idols

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